Post by Rui Caria

Photographer and visual journalist - Based in Azores, Portugal. Leica Photographer - Award winning photographer

Quando o vi pela primeira vez no, agora extinto, seminário de Angra, trazia vestida uma T-shirt de uma banda de heavy metal. Era aquele seminarista de 24 anos que eu iria filmar durante meses. Naquele dia ainda não sabia o que ia fazer. Não havia guião porque nunca há quando vamos em busca do que não conhecemos. Movido pela curiosidade filmei o Nélson durante meses até à sua ordenação em 2012, em Rabo de Peixe, onde nasceu. Nesse dia, o meu filho, ainda pequeno, foi comigo a São Miguel para conhecer o Nélson e assistir às filmagens da cerimónia. A montagem da história fora-se desenhando na minha cabeça ao longo dos meses durante as filmagens e à medida que ia conhecendo o Nélson. Faltava apenas deslindar a parte final. Era o fim da história a parte a que não estava a conseguir dar fim. Naquele dia, na igreja de Rabo de Peixe, parei de filmar e saí da igreja ainda com o Nélson em prostração total, deitado no chão de barriga para baixo, querendo chegar ao húmus que só a terra tem. O meu filho perguntou-me “pai, não filmas mais? Parece que ainda não terminou…” Também eu me perguntei, “não filmas mais?” Mas não tive resposta de mim, nem para mim nem para o pequeno Francisco que parecia não compreender o que se passava. Abandonei a igreja e fomos para o hotel. Ao fim desse do dia liguei ao Nelson, agora ordenado padre, para justificar a minha saída repentina da igreja. Eu já sabia porque tinha saído da igreja sem querer filmar mais, só não imaginava que o Nélson soubesse. Pedi desculpa por não me ter despedido; do outro lado da linha ele disse “não peças desculpa. Bem sei porque te foste embora quando ainda estava em prostração. O filme que estás a fazer acaba ali, comigo deitado no chão.” Nem lhe perguntei como é que ele sabia da minha decisão. Só fiz silêncio durante alguns segundos e disse “sim. Acaba ali; por isso saí porque se ficasse iria filmar mais material que me iria contaminar o fim da história. Assim como não tenho mais nada, o filme acaba ali”. Ele acenou com a cabeça, mesmo que eu não pudesse ver pelo telefone, e disse “bem sei”. Nunca o publiquei e não sei porquê. O ano passado reencontrei o Nélson e completei o filme que agora foi selecionado para o primeiro festival internacional de cinema religioso em Portugal, o cineFé. Treze anos separam o testemunho e as filmagens deste trabalho documental. Este relato iniciado em 2012 e terminado em 2025, propõe a reflexão sobre ser ou não ser padre. Os anseios e expectativas de um jovem seminarista de 24 anos são expostos neste filme. Os anos de caminhada do Nélson no seminário de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, levaram à sua ordenação, em julho de 2012, na igreja de Rabo de Peixe, em São Miguel. Nesse dia, em prostração total, o Nélson dava inicio a uma nova caminhada de transformação do jovem para o homem que hoje se mostra mais forte e, ao mesmo tempo, mais frágil. Diagnosticado há seis anos com esclerose múltipla, o Nélson sorri na doença e diz que "a cruz dá sempre jeito; sempre!"

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