Post by Ramiro Zwetsch

Jornalista

Mannenberg é um bairro da Cidade do Cabo, na África do Sul. Foi criado em 1966 e sua matéria-prima é a opressão e o racismo. O governo fascista do país à época, marcado pelo criminoso apartheid, onde uma pequena população de brancos segregava o resto da nação, expulsou mais de 30 mil pessoas de suas casas para criar à força um novo bairro. Essa migração forçada gerou uma onde de “refugiados” urbanos que deram origem ao bairro. Hoje, com mais de 50 mil moradores, é conhecido para além de sua história. Mannenberg também tem um som. Em 1974, o pianista Abdullah Ibrahim, opositor da política instituída em seu país de origem, decidiu transformar a história do bairro em música. Com uma banda formada por outros 4 instrumentistas, gravou um improviso de pouco mais de 13 minutos que batizou de “Mannenberg”. Ao contrário do que se poderia esperar da história que marcou o surgimento do bairro, apesar de contar com uma certa melancolia, o que se ouve é uma melodia alegre, simples e cíclica, em que os solos de saxofone, principalmente de Basil Coetzee, se desenvolvem para dar quase um clima de celebração. O que se celebra ali, não é o racismo e a segregação, mas sim a alegria de quem, apesar de tudo, resiste. A felicidade, a dança, a música como resistência – a resposta que mais causa ódio ao opressor: apesar de tudo, temos algo que você não tem, algo que seu ódio o impede de alcançar. +++ Reproduzo acima os dois primeiros parágrafos do texto que o Alexandre Duarte escreveu sobre o gigante Abdullah Ibrahim (aka Dollar Brand) para a Radiola Urbana. O pianista sul-africano partiu no dia 15 de junho, aos 91 anos, e deixa um legado de resistência às opressões com sua música elevada. Em 2017, ele se apresentou em SP no Sesc Jazz (então Jazz na Fábrica) em um show que me arrebatou em cheio. Leia: https://lnkd.in/gpufxD-t

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