Post by Priscilla Burmann
Jornalista | MBA em Agronegócios | Especialista em Geopolítica, Gestão de Riscos e Novas Oportunidades | Fotógrafa | Produtora de Conteúdo Multimídia
É, a missão à Rússia aconteceu. (não como eu imaginei). Depois de 35h de voo, eu só queria pousar, lavar o rosto, reaprender a ficar em pé e fingir que o corpo entendia alguma coisa de fuso. Mas o avião desviou. (ataques de drones na região). São Petersburgo ficou a 700 km de distância. Cheguei assim: meio torta, meio exausta, com o estômago lembrando que o mundo é grande (mas minha fome de mundo é maior ainda). E talvez tenha sido uma introdução muito honesta ao tipo de missão que estávamos prestes a cumprir: estratégica e atravessada pela complexidade do tempo presente. Fui em missão internacional pelo Ministerio da Agricultura. (escrevo isso e ainda acho bonito. Não pelo cargo; pelo caminho, sabe?) Para uma mineira do vale do jequitinhonha, nordeste de Minas, atravessar o mundo para trabalhar pelo Brasil dá um nó danado na garganta. Desses que a gente disfarça com profissionalismo, porque ninguém precisa saber que, por dentro, tem uma menina emocionada, olhando encantada pela janela e pensando: olha onde eu vim parar. Talvez seja isso que Ariano Suassuna chamava de realismo esperançoso: saber da dureza do mundo, mas, ainda assim, não abrir mão do encanto. A missão passou por São Petersburgo, Kirovsk e Moscou. Participamos, dentre outros eventos, do Fórum Econômico Internacional de São Petesburgo. Ali, entre corredores, painéis e palavras cuidadosamente medidas, percebi que relação entre países não se constrói apenas com fotografia oficial. Constrói-se no detalhe, presença, escuta e na insistência quase silenciosa de continuar conversando quando o mundo parece desaprender a conversar. Um dos principais resultados da missão foi o reconhecimento, pela Rússia, do Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação. Um golaço! 😃 Agora, a parte que escapa às formalidades. Poucas horas antes de embarcar, eu li Noites Brancas, do Dostoiévski. Na história, o protagonista é atravessado por uma cidade quase irreal, por uma solidão luminosa, por uma espera que parecia durar mais do que a própria noite. Mas foi só em São Petersburgo que entendi, de verdade, o que ele talvez quisesse dizer. Porque há cidades que a gente visita. E há cidades que, de algum jeito, nos visitam. Afinal, algumas missões não atravessam apenas fronteiras. Elas alargam a forma como a gente entende o próprio lugar no mundo. Spasibo e do skoroy vstrechi, Rússia. 💛 Gratidão aos amigos de jornada Luis Rua, Rafael Guimarães Requião, Marco Túlio Santiago e Svetalana.