Post by Marcos H. Salles

Partner/Founder @ Decah & Base.lab | ESG | Impact | Regenerative Economy | AI | Electoral Campaigns

Ninguém que vive uma era sabe o nome dela. Os habitantes da Baixa Idade Média não sabiam que viviam lá. Os contemporâneos da Revolução Industrial achavam que estavam apenas trocando de máquina. A periodização histórica é sempre um ato retrospectivo — e de poder. Quem nomeia a era define o que importou nela. Então: se um historiador de 2500 olhasse pra trás, como chamaria o que estamos vivendo? ➖ Meu palpite: O Interregno. O conceito é de Gramsci, escrito da prisão nos anos 1930: "O velho está morrendo e o novo não pode nascer, e nesse interregno surgem os monstros." O contexto original era a crise do liberalismo europeu entre guerras. A aplicação ao momento atual é incômoda de tão precisa. A ordem liberal globalizada do pós-1989 está visivelmente rachada. → Na confiança nas instituições → No contrato social → Na governança climática → Na própria ideia de verdade compartilhada Mas o que vem depois ainda não tem forma. Estamos no vão. E os "monstros" — polarização, populismo autoritário, niilismo institucional — são sintomas do vão. Não são a coisa nova. São o que brota quando as velhas instituições perderam legitimidade e as novas ainda não existem. ➖ Tem outro nome possível: Primeira Era Algorítmica Pela primeira vez na história, a humanidade delegou decisões epistêmicas — o que é verdade, o que é relevante, o que merece atenção — a sistemas não-humanos. Um algoritmo de feed decide o que você vê. Um sistema de busca decide o que existe. Um modelo de linguagem ajuda a decidir o que faz sentido. Não é que a máquina "pensa." É que ela ocupa o lugar estrutural que antes era de editores, curadores, professores, sacerdotes. A função epistêmica migrou. E o efeito colateral é inédito: a mesma infraestrutura que permite a um pesquisador no Pará acessar papers de Stanford permite que teorias conspiratórias virem movimento global. Estupidez e inteligência amplificadas igualmente, na mesma velocidade, em escala planetária. ➖ Tem um terceiro nome possível: Paradoxo Climático Não por causa da disputa sobre se as mudanças climáticas são causadas pelo homem — isso é debate de 2026, não de 2500. O ponto é outro, e mais constrangedor. Um historiador do futuro não precisaria entrar nessa briga. Bastaria registrar um fato: a humanidade acreditou que estava causando uma crise existencial — e agiu de forma incongruente com essa crença. Produziu relatórios, assinou acordos, criou metas. E seguiu fazendo o oposto. Isso, por si só, já é historicamente notável. Independentemente de quem estava certo. É a definição de tragédia grega aplicada a civilizações. ➖ Então, se "monstros" são passageiros, pra onde vamos? Fora que "passageiro" em tempo histórico pode significar décadas. O interregno entre Roma e a ordem medieval durou séculos. A pergunta não é se passa. É quanto custa a passagem — e quem paga.

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