Post by Ivan Scarpelli

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Em 1916, o poeta Hugo Ball entrava no clube Cabaret Voltaire, em Zurique, enfiado numa fantasia de bispo cubista. Recitou para os presentes poesia toda feita de sílabas sem sentido. Era um protesto em forma de arte, contra a racionalidade que havia produzido a Primeira Guerra Mundial e, em especial, contra a lógica das máquinas. Mais de cem anos depois, são as máquinas que produzem arte. E é precisamente nesse momento que o duo canadense Angine de Poitrine chama atenção. Sua sonoridade esquisita, de palavras e nomes inventados, tem o DNA do dadaísmo, com a desconfiança da perfeição e a convicção de que o humano se revela justamente onde tropeça. Ouvir Angine de Poitrine é se ver diante de escolhas que nenhum algoritmo faria, porque nenhum algoritmo foi treinado para valorizar o desvio pelo desvio. O que a dupla defende é que a estranheza não é um defeito a ser corrigido. É o sinal vital da presença humana na arte. Uma decisão estética em um momento em que o ato criativo começa a ser delegado para sistemas que produzem apenas para o que é agradável de se ver e se escutar. Isso é, sim, uma forma de resistência. É algo sutil. Simplesmente continuar fazendo a coisa errada do jeito certo. E isso por si é um barulho enorme. Escutem o trabalho dos dois no vídeo abaixo.

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