Post by Fabiana M. Magalhaes

Advisory estratégico para CEOs e founders de moda e varejo. Fundadora da FM Strategy. SHEIN → Aliexpress → Dafiti → Marisa → Riachuelo. 25+ anos de decisões críticas de crescimento e rentabilidade.

Eu trabalhei dentro da Shein. Por isso a compra da Everlane não me pareceu ironia. Me pareceu óbvia. Relatos apontam que a Everlane valia 600 milhões de dólares. A Shein acabou de comprar por 100. A mesma Everlane que construiu uma marca inteira sobre transparência radical, sustentabilidade, consumo consciente. Comprada pela empresa que o mercado adora apontar como o oposto de tudo isso. E aí o mercado reagiu como se fosse uma história irônica. Como assim a queridinha do slow fashion foi parar na mão da ultra fast fashion? É exatamente aqui que está o ponto que poucos captaram. E eu não estou lendo essa compra de fora. Cheguei na Shein no Brasil quando o escritório tinha duas pessoas. Fui head de produção local e ajudei a construir a operação de produção sob demanda por aqui, fábrica por fábrica. Vi de perto como aquela máquina lê o cliente e transforma isso em produto numa velocidade que o mercado não alcança. Quem viveu isso de dentro entende o que a Shein foi buscar na Everlane. A Shein não comprou uma marca de sustentabilidade. Ela comprou quatro coisas que não conseguia construir sozinha. Comprou a credibilidade de um público premium, mais consciente. Comprou presença e legitimidade no mercado ocidental, principalmente nos Estados Unidos, onde ela ainda apanha. Comprou os dados de comportamento de uma base de cliente que ela não tinha. E comprou a propriedade intelectual de uma marca que conversa com esse cliente de um jeito que a Shein não sabe conversar. Esse pacote vale muito mais que 100 milhões. Agora deixa eu desmontar um mito. A Shein vira notícia pelo preço baixo, mas o que sustenta ela é outra coisa: como ela trata a cadeia produtiva. A Shein opera como empresa de tecnologia aplicada ao supply chain. Ela lê a demanda em tempo real. Produz o que o cliente quer, na velocidade que ele quer. Gira estoque rápido, reduz o risco de encalhe, protege a margem. A mágica está na operação. E a Everlane? Construiu uma conexão linda e se perdeu no caminho. Os próprios fãs sentiram. Queda de qualidade, preço subindo, mais SKU pra tentar recuperar margem. O discurso de sustentabilidade continuou bonito. Só que sozinho ele não se paga. Esse é o ponto que dói. O desejo de consumir consciente existe, de fato. Em todo setor. Mas na hora de decidir, o que é mais conveniente, mais rápido e mais barato fala mais alto. Então a conta é simples. A Shein não venceu com a melhor narrativa. Venceu com a melhor operação. E agora ela compra a narrativa também. Propósito sem eficiência não sustenta crescimento.

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