Post by Cassiano Leonel Drum

Corretor de imóveis comerciais na QuintoAndar

#O #Tecelão #e #o #Relógio #de #Areia Havia, no topo de uma colina onde o vento costumava uivar mais alto, o ateliê de um velho tecelão chamado Benício. Ele era conhecido por fabricar os mantos mais resistentes da região, mas carregava uma sina: vivia correndo contra as horas. Suas mãos trabalhavam no tear de forma frenética, os olhos fixos no prazo de entrega, enquanto murmurava que o dia precisava ter mais horas. Ele não tinha tempo para o tempo que sempre tivera. Sua oficina era decorada por um antigo relógio de areia, herança de infância. Naqueles anos de menino, a areia parecia flutuar devagar, cheia de esperança e promessas de uma alegria sem fim. Mas o mundo adulto cobrou seu preço. Para dar conta de tantas encomendas, Benício trabalhou tanto que deixou o próprio tempo de lado. Quando finalmente erguia os olhos do tear e olhava para o lado, percebia que as cadeiras da sua mesa estavam vazias; quem esperava por ele já tinha partido. Certa noite, uma tempestade severa isolou a colina. Benício, orgulhoso, tentou acender sua lareira com pressa, batendo cabeça onde a passagem era fácil, usando gravetos úmidos e desafiando o frio com uma coragem cega. O fogo não pegou. Ele buscou abrigo na casa dos vizinhos que outrora se diziam grandes amigos, mas as portas se fecharam sob a desculpa da tempestade. Ao voltar para a oficina gélida, restaram apenas ele, Deus e o sereno que entrava pelas frestas do telhado. Sentado no chão, tremendo, Benício olhou para o relógio de areia no canto da sala. Pela primeira vez na vida, o silêncio da oficina era total. E, naquele silêncio, o tempo começou a lhe ensinar. Ele percebeu que cada grão de areia que caía era como uma semente plantada outrora. Compreendeu, com um aperto no peito, uma dura realidade: a própria chegada de um grão ao fundo do vidro já era o anúncio de que sua hora de ir embora havia chegado. O tempo era o espelho real de sua solidão, mas também era o único que o mantinha em pé, mostrando quem realmente importava. - Senhor do Tempo - sussurrou o tecelão para a escuridão, com o coração desarmado -, eu diminuo o meu passo. Entendi as lições. Só peço que me dê muitas auroras. Na manhã seguinte, o sol nasceu limpando o céu. Benício não correu para o tear. Ele caminhou com passos lentos até a janela, respirando o ar fresco e apreciando o amanhecer como se fosse o primeiro de sua vida. Ele não recuperaria os grãos de areia que já haviam caído, mas dali em diante, cada aurora seria tecida com a paz de quem finalmente aprendeu a caminhar.

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