Post by Bruno Zolotar
Executivo de Marketing, Vendas e Estratégia | Construção de Marcas, crescimento e negócios culturais | Professor e pesquisador
Existe a ideia de que uma grande obra sobrevive ao tempo por si só. Não é verdade. Obras de artistas e escritores perdem relevância quando deixam de ser cuidadas. Tenho visto entrevistas interessantes com João Marcelo Bôscoli, filho de Elis Regina, e Carmelo Maia, filho de Tim Maia, sobre a curadoria das obras de seus pais. Tanto um quanto o outro falam da importância de manter esse legado vivo e lembrado por meio de musicais, filmes e novas gravações. O filho de Tim Maia conta que saiu de uma dívida milionária e mais de 300 processos para um momento em que, a obra do pai nunca gerou tanto dinheiro em direitos e continua extremamente popular. João Marcelo, também produtor, remixou e remasterizou o álbum de 1973 de Elis e, todos os anos, lança algo "novo" da cantora. Ambos são criticados ou chamados de mercenários. Você pode até questionar, do ponto de vista estético, um álbum do Jota Quest com músicas de Tim Maia ou o disco de Elis remixado e remasterizado, que altera vários arranjos originais de César Camargo Mariano. Mas, em um ponto, eles têm razão: obra de autor falecido que não é trabalhada cai no esquecimento. E isso vale para livros também. O mercado está cheio de autores consagrados com obras abandonadas ou esquecidas nos catálogos da editoras e isso num mundo de concorrência feroz. Segundo a Statista, só nos Estados Unidos são lançados cerca de 3,5 milhões de livros de autopublicação por ano. E esses autores estão trabalhando ativamente nas redes sociais, criando conteúdo e disputando espaço no concorrido mercado da atenção. Como manter viva a obra de um autor já falecido nesse panorama? Um caminho é revisitar a obra desses autores com novos recortes ou edições para novos públicos, todos os anos. Livro "novo" de autor falecido ganha espaço nas livrarias, os algoritmos de sites como a Amazon voltam a recomendá-lo, a imprensa menciona, clubes de leitura adotam e influenciadores comentam. Trabalhar as redes sociais também é fundamental. Muita gente está descobrindo ou redescobrindo autores pelas vitrines do YouTube, TikTok e Instagram. É preciso manter a obra pulsando. Hoje, Tim Maia tem mais de 4 milhões de ouvintes mensais no Spotify. Elis, mais de 3,4 milhões. A Hora da Estrela é o segundo livro de ficção mais vendido do ano, segundo o PublishNews. Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcellos, voltou às listas dos mais vendidos. Grandes obras não conquistam novas gerações apenas pela sua qualidade. Continuam relevantes porque alguém decide cuidar delas. É resultado do trabalho constante de herdeiros, curadores, editoras e gravadoras. O legado não vive, nem se preserva sozinho. #Literatura #Livros #MercadoEditorial #Marketing #Branding