Post by Augusto Carminati

Futurista

Vamos de ficçãozinha? O tema de hoje são as possíveis soluções para o imenso gasto hídrico da IA. Submaré Hélio tomava o barco das 05h40 rumo a Submaré, um data center pioneiro entre os subaquáticos, o primeiro da América do Sul, cravado na imensa foz do Amazonas. Em 2036, Belém era rica de royalties desde que o centro começou a atender IAs dos EUA; no cais, os guias diziam: “é água daqui na cuca de lá”. Ele sorria e seguia. Quase ninguém trabalhava ali (e mesmo assim chamavam de cidade, era mais performático). Dois píeres, um prédio de vidro que servia de cérebro, tanques de bateria, duas torres como mastros e o traço do cabo que sumia no Atlântico. O grosso ficava no fundo: cápsulas de aço seladas com gás inerte, cada uma com doze armários de máquinas. Debaixo d’água, tudo durava mais e falhava menos. Acima, os números na parede repetiam o mantra de Belém: pouca energia desperdiçada, zero água doce no resfriamento, vento vindo do mar. O turno pedia inspeção leve. Hélio e Joana desceram o ROV; a câmera pintou o verde pardo. A cápsula 3-N surgiu com a respiração lenta de uma baleia metálica. Sem arranhões, sem crosta fora do previsto. Só um ronco grave no fone, contínuo, a vinte e um hertz. Desde que revelaram que certos sons atrapalham servidores, todo subgrave virava suspeita. _Pode ser corrente batendo no casco - disse Joana. _Pode ser gente... — ele respondeu. Hélio ativou o cinto amortecedor que abraça a cápsula e engole frequências chatas. O ronco murchou. No prédio de vidro, os gráficos caíram e voltaram, como quem tropeça e se recompõe. Relatórios limpos: nada superaquecendo. Ali, o frio era do oceano; a energia, do vento. O cliente queria isso: resposta rápida sem beber água da cidade. Chegaram três investidores: capacetes novos, brilhando. Hélio mostrou o painel (setas de fluxo, números calmos). “O rio não desce; é o mar leva o calor.” - como costumava sempre responder. Também perguntaram da vida em volta, como se realmente se importassem. Ele respondeu com mapas, testes, tinta que não envenena, parceria com a universidade. “Mas não é milagre não, viu? É muito cuidado!” Na saída, o ronco voltou, e agora com pausa, como um teste de distância. Um casco pequeno ficou imóvel além da zona de segurança. "Pescador não para assim", era suspeito demais. _Chama o alerta, Hélio? _Ainda não. Sem alarde. Ele ativou o contracanto; a onda grave se dissolveu como neblina. Anotou seco: “origem incerta; reforçar blindagem; vigiar recorrência”. O entardecer encostou em Belém, imensos prédios novos e modernos, construídos nos últimos 6 anos. Checou as mensagens: a mãe querendo pescada, a irmã exibindo o Teatro-Novo. Tudo “pago pelo mar e o vento”. No desembarque, o grafite neon imenso: A CIDADE QUE O MAR EMPRESTOU. Pensou que o lema servia bem. Amanhã, maré permitindo, ouviria o fundo outra vez, e se Deus quiser, mais investidores viriam.

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