Post by Altamira Simões

Psicóloga CRP 03/21396

Antes de setembro chegar Em dezembro de 2023, aconteceu a 5º Conferência Nacional de Saúde Mental, levando o nome de Domingos Sávio. Médico sanitarista, uns dos militantes da luta antimanicomial, defendia o cuidado em liberdade. Naquela ocasião, fiz parte da Comissão Organizadora e coordenei a Comissão de Arte, Cultura e Educação Popular, como conselheira nacional de saúde no CNS. Nesse período de organização, fomos atravessados pela COVID 19, adiando o processo em 3 anos. Por meio da escuta ativa nos territórios, abrangendo usuários e usuárias, e profissionais da área, torna-se evidente a gravidade do comprometimento da saúde mental, em uma proporção que a sociedade ainda desconhece. Após a COVID 19 muito tem se falado de sofrimento psíquico, mas podemos observar que a atenção especial está focada no “Setembro Amarelo. ” Durante o mês de setembro são inúmeras campanhas com a intenção de promover o cuidado e o acolhimento às pessoas que estão adoecidas. Podemos destacar que não há consenso entre cuidar em liberdade e manter em instituições similar aos antigos manicômios. Mas, esse texto quer chamar a atenção sobre as causas que podem levar as pessoas ao sofrimento psíquico; e elas são muitas, combinando a genética, neuroquímica, traumas, o ambiente e estilo de vida. E para algumas populações e grupos, o racismo e a misoginia são fatores determinantes no adoecimento mental. E é sobre esses fatores sociais, o racismo e a misoginia que gostaria de falar. O racismo interfere em nosso modo de vida porque nos leva a falta de acesso, a escassez, nos mantendo na base da pirâmide social, potencializando as frustações, o medo, e a tristeza. O racismo gera pobreza, exposição à violência, a morte. Nas questões de gênero, nos coloca em situação de vulnerabilidades tanto no âmbito doméstico quanto no mundo do trabalho. Sendo uma mulher negra, as duas combinações, etnia e gênero, definem a forma de tratamento, a forma de ser questionada e validada. Numa sociedade com características patriarcal, todas as pessoas são atravessadas por suas práticas, há uma naturalização, que às vezes, passa despercebida no cotidiano, até mesmo de quem sabe do que estou falando. O cuidado com a outra pessoa é um caminho possível na promoção e na prevenção da saúde mental. No caso de pessoas negras, precisamos ficar atentos ao auto-ódio, porque o racismo é um projeto político, e a nossa divisão é o objetivo central. As campanhas são importantes, as datas são importantes, mas é no dia a dia que podemos criar estratégias para o bem viver, pessoal e coletivo. Nos cuidemos.

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